quarta-feira, 21 de maio de 2014

"ter para viver" ou "viver para ter"

    Vivemos em uma sociedade que inverteu os valores do próprio viver. Hoje, a vida em si não é mais vista como um fim, mas sim como um meio. Um meio de realizações profissionais, realizações interpessoais, realizações materiais.. ou qualquer outro tipo de realização possível e imaginável. Ora, as realizações terrenas por assim dizer, vontades e desejos, não passam de "adornos" que, cada vez com mais frequência e maior peso cobrem o objetivo primordial da vida, que é o de viver.
    Todos esses adornos deveriam ser vistos como meios para um bem viver, e não permitir que esses sufoquem a vida e a enfraqueçam em meio aos afazeres, metas e objetivos, deixando de lado o "eu", o autoconhecimento e a atenta reflexão acerca do próprio viver, dos conceitos morais incondicionais que regem nossas atitudes. Mas como podemos notar, e talvez seja esse o maior problema do mundo descontrolado e imprevisivelmente perigoso, lascivo e volúvel em que vivemos, o conceito de moral incondicional parece estar fora de moda, ultrapassado, e cada vez mais perde força diante de uma vida dinâmica, repleta de "oportunidades" que, misturadas a falta de sentido, viram uma perigosa combinação.
    Se a construção de valores morais comuns não é possível diante da adversidade humana e cultural, talvez deva-se reformular esse conceito, e instituir, mesmo que por decreto, "valores  morais" que preservem a vida, ou, a "vontade de potência" de Nietzsche, que independe da valorização da sociedade mas vai de encontro a valorização do ser diante dele mesmo (já que a sociedade, apesar da impessoalidade que sua conotação trás, somos nós, cada um de nós!) e  não que preservem o enriquecimento, ou o consumismo, ou o capitalismo, ou uma ideia distorcida de futuro e bem viver por vezes apresentada no caminho em que trilhamos.

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