quinta-feira, 29 de maio de 2014

Paixões

Dizem que nossas paixões obrigam nosso pensamento a caminhar em um circulo vicioso

                - O retrato de Dorian Gray, Oscar Wild

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Respingos de causalidade

Viver com as sobras da causalidade, sem conhecer-se realmente, sem conhecer seu próprio potencial e sem saber onde quer ou pode chegar. Contentar-se em suportar a vida, sem grandes metas, sem grandes planos, sem grande fascino por ela. Contentar-se com aparências, com futilidades, com pequenas coincidências que parecem indicar um caminho. Contentar-se com conversas pequenas, com almas pequenas. Abraçar o destino e suas causas, arrastando sua habilidade de criar oportunidades para o buraco. Não ter ideia de que as oportunidades são criadas por você e não são alheias a você. Quem um dia já penetrou na causalidade e mergulhou em seu denso oceano jamais se contentará com seus respingos.

Lirismo #11 - Teorias da paixão

Dizer-se apaixonado por caráter, beleza, bondade ou inteligência são apenas boas explicações para o inexplicável. Apaixonamo-nos pela essência, o conjunto das coisas, sem explicações compreensíveis, sentimo-nos arrebatados sem poréns, sem mas... apenas queremos ser e estar enquanto o tempo deixar.

Lirismo #10 - Antes de ter

Quanto tinha nada eu tinha tudo.
Quando tive um pouco logo quis mais..
Quanto tive muito, por achar pouco, pus tudo a perder..
Com isso, ao não ter muito nem pouco, perdi o tudo fruto do nada de outrora ..
E assim fiquei eu, em meio a incompleta significância do meu tudo perdido e meu nada encontrado.

Lirismo #9 - Um dia..


Um dia eu pensei amar.. mas vi que não era e logo despertei..
Um dia eu amei.. logo fui despertado e com lembranças fiquei..
Um dia eu pensei.. e quando olhei.. tarde de mais, o amor já havia escapado..
E quando voltou.. já não havia mais espaço para suas loucuras, parecia-me demasiado vulgar, demasiado pesado, diferente de sua costumeira leveza.. outra vez me enganei..
Eu e o amor, o amor e eu, um dia nos encontramos?! quem sabe..
Talvez um dia nos acertamos, mas até lá, brincamos e nos enganamos.

Lirismo #8 - Amor, Palavra

Amor; Palavra simples, com pretensões de transcrever sentimentos diversos, confusos, inexplicáveis;
Amor; Palavra pequena, que trás consigo o peso do que não cabe mais em palavras, da vontade presa na garganta que não conhece outra forma verbal de manifestar-se;
Amor; Palavra pesada, carregada de promessas e deveres, desejos e vontades, sonhos e realidade.
Amor; Palavra controversa.. uns exaltam outros mal dizem, uns acreditam outros duvidam.. mas cada um vive-o como sabe.

O amor proferido tem peso pra quem ouve, que recebe a boa nova como uma divida, uma promessa.. a eternidade é tão sentida quanto mentirosa.. e a mais dura das promessas a ser quebrada.

O amor dos amantes sabe chegar, sabe agradar, sabe prometer, sabe acalentar.. mas também sabe sair com pés de lã, silenciosamente, deixando um vão escuro e doloroso com sua partida.

"Eu te amo!", quando ainda preso, não dito, torna-se um dos segredos mais difíceis de guardar, sendo tão natural que quase escapa, tão forte que decide por si só, parecendo que, a qualquer momento, ele sairá, graciosamente flutuando por ai, espalhando  sua vontade de perpetuar-se.

Lirismo #7 - Arrependimentos

Relativo arrependimento! relativo a que? já não mais lembro eu..
Se lembro.. talvez não queira acreditar.. recusando-me a aceitar tamanha distorção..
Culpa do medo, da liberdade ou da busca pela felicidade?
Certamente cada um tem sua parcela de culpa..
Vez que outra, furtam-me o que de mais precioso tenho: O agora!
Vez que muitas, convido-lhes para entrarem e delicio-me com seu doce veneno..
Vez que sempre, lhes expulso com fogo nos olhos..
Vez que sinto, com água nos olhos imploro para que fiquem..
São tão certos quanto certeza, e como tal, melhor não mastigar..
Nada oferecem além de dúvidas, cada uma parecendo tão certeira quanto a morte, ao menos quando lhes convém..
Quem sabe talvez.. uma hora talvez, o medo sussurre, e a feliz liberdade transcreva minha verdade menos mentirosa.. e quem sabe, quem sabe talvez, por ser porta voz eu mesmo, eu não acredite em mim mesmo, outra vez..
Ora, como confiar em tamanha confusão?

Lirismo #6 - A espera



Perdido em mim mesmo sinto-me esperando..
A espera do que  nem eu mesmo sei, então repreendo-me: A vida é agora, a vida é aqui! 
Porém, a percepção do momento se perde no caminho turbulento que já nem lembro desde quando atravesso com tanta pressa, ou desde quando espero..
Mudança pequena, essa da percepção, mas deve ela transformar-se em sentimento.. e ai que está o X da questão. Domar o indomável.. adestrar o sentido.. quem sabe um dia eu ainda consigo.

Lirismo #5

Bocas nuas

Corpos entrelaçados, bocas nuas, pensamentos despidos, respirações descompassada, desejos complacentes. O que se é e o que se quer ser já não mais importa. O desejo da pele é mais voraz do que a mais contundente filosofia, não precisa ser interpretado, discutido ou raciocinado, apenas vivido.

Flerte ou paixão?

Todo flerte é um jogo de vaidades.. luxuria espalhando sua lascividade  descompromissada.
Diferente é a paixão, um jogo de egoísmo.. onde promete-se o mundo, e espera-se o céu.

Menos mal que tem fim

Vida! Querer, não querer.. findável não saber de uma certeza só.

Única certeza, talvez

A duvida só termina quando a vida acaba.

Com entender?

Tudo quero quando nada posso..  já quando tudo posso, nada mais quero.

Fagulha

Uma pequena fagulha de passado mal resolvido já basta para incendiar o seu, até então, intransponível, seguro e protetor muro de serenidade construido com  bases de certezas relativas.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"ter para viver" ou "viver para ter"

    Vivemos em uma sociedade que inverteu os valores do próprio viver. Hoje, a vida em si não é mais vista como um fim, mas sim como um meio. Um meio de realizações profissionais, realizações interpessoais, realizações materiais.. ou qualquer outro tipo de realização possível e imaginável. Ora, as realizações terrenas por assim dizer, vontades e desejos, não passam de "adornos" que, cada vez com mais frequência e maior peso cobrem o objetivo primordial da vida, que é o de viver.
    Todos esses adornos deveriam ser vistos como meios para um bem viver, e não permitir que esses sufoquem a vida e a enfraqueçam em meio aos afazeres, metas e objetivos, deixando de lado o "eu", o autoconhecimento e a atenta reflexão acerca do próprio viver, dos conceitos morais incondicionais que regem nossas atitudes. Mas como podemos notar, e talvez seja esse o maior problema do mundo descontrolado e imprevisivelmente perigoso, lascivo e volúvel em que vivemos, o conceito de moral incondicional parece estar fora de moda, ultrapassado, e cada vez mais perde força diante de uma vida dinâmica, repleta de "oportunidades" que, misturadas a falta de sentido, viram uma perigosa combinação.
    Se a construção de valores morais comuns não é possível diante da adversidade humana e cultural, talvez deva-se reformular esse conceito, e instituir, mesmo que por decreto, "valores  morais" que preservem a vida, ou, a "vontade de potência" de Nietzsche, que independe da valorização da sociedade mas vai de encontro a valorização do ser diante dele mesmo (já que a sociedade, apesar da impessoalidade que sua conotação trás, somos nós, cada um de nós!) e  não que preservem o enriquecimento, ou o consumismo, ou o capitalismo, ou uma ideia distorcida de futuro e bem viver por vezes apresentada no caminho em que trilhamos.

Impessoalidade politica

Identifico como um dos grandes problemas da política como sendo a impessoalidade por ela assumida diante das pessoas. Quando falamos de política, parece que falamos em algo pronto, algo intangível, que até certo ponto tem vida própria, não tem jeito nem solução. A impessoalidade através da qual ela se apresenta é pouco convidativa para uma participação generalizada e para a existência de uma preocupação coerente com a gravidade da sua importância. 

A política não nos atinge na hora do discurso, nas promessas, e nem mesmo na descoberta da corrupção, isso atinge apenas nossas vontades de ter ou de ser, apenas nossos brios. A política nos atinge no dia a dia, nas coisas banais, nas entrelinhas do cotidiano. Os grandes problemas por ela gerados são pequenos desconfortos que fazemos vista grossa, empurramos com a barriga até que esses pequenos problemas fiquem pesados de mais, virem monstros incontroláveis, abstratos, que carecem de soluções complexas e inteligentes, que envolvem engajamento de todos. Porém, nem todos estão dispostos a isso, a dedicar-se aos problemas, por que agora, como eles são grandes de mais, e "minha" atitude por si só não faz diferença, então jogamos a culpa no governo, ou na sociedade ou em outras coisas que parecem nos fugir do controle (quem são esses se não nós mesmos?! Existe alguma força política, social, organizacional além do homem?). Com isso, grande parte dos interessados (nós) tiram o corpo fora, por acharem-se insignificantes diante do problema, diante do sistema, causando a proliferação dos problemas e putrefação dos mesmos.

Outro fator está ligado a responsabilidade moral de cada um de nós. A impessoalidade da política parece envolver os praticantes da mesma em um escudo contra julgamentos morais. Agindo por de trás de uma instituição, os que efetivamente fazem a roda da política girar, ou de fato são suas engrenagens, escondem-se por detrás de um estado corrupto, atrás de uma política corrupta, como se a política ou o estado por si só pudesse ter alguma qualidade do gênero. Até mesmo quando pensamos que o problema da política é o povo corrupto, apesar de certa verdade, caímos na impessoalidade de uma designação. Ora, vamos dar nomes aos bois! A culpa é nossa, da nossa falta de engajamento, falta de interesse, pelo nosso deixar acontecer, da falta de compromisso e do enfraquecimento dos valores morais mais nobres (ou até seu desaparecimento!).
 
São tantos cargos, que a maioria sabe apenas o nome do presidente, o resto são apenas designações políticas, que agem através de uma sombra sem obrigações morais, sem cobranças efetivas. Nós, seres sociais, contrariando o que se espera, desaprendemos a forma de fazer política, os seu primordial objetivo: Uma facilitadora nas relações interpessoais, provendo a justiça e o bem estar através do estado e não transformar o estado em uma maquina de produção, onde o objetivo é o controle social visando o enriquecimento do estado e de quem dele se beneficia (e certamente não é a maioria de nós, mas poucos que escondem-se atrás de classes sociais mais elevadas, e por isso, acima da moralidade por auto julgamento).

A solução para os monstros construidos através de séculos só será possível quando for uma questão pessoal para cada um de nós, quando a moralidade e a ética de cada um tiver força suficiente para ponderar por suas atitudes e assumir suas responsabilidades perante os outros seres humanos. E sim, isso aprende-se na escola, aprende-se no berço familiar, aprende-se desde as primeiras relações sociais as quais somos submetidos. Isso chama-se responsabilizar-se pelo que se faz ao invés de colocar a culpa em algo inatingível (como numa designação), que por sinal, é algo que mostra-se extremamente difícil em uma sociedade formada por caráter duvidoso. Quando o caráter é fortemente moldado qualquer problema que insinue ferir-lhe é tido e resolvido como pessoal.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Visões utópicas

Um dos problemas com as ideologias políticas e sociais utópicas é que elas não preveem o homem como sendo o que é: parte irracional, altamente corruptível, ganancioso, perverso e com uma predisposição a tirania, capaz de mudar seus valores (ou mascaras) diante das adversidades ou "oportunidades", já que aos olhos de seu engenhoso super ego, arrogante e prepotente, suas intenções sempre lhe parecerão nobres, isso por que o mesmo é o centro de seu próprio universo, e para poucos o instinto de auto preservação é menor do que o extinto de preservação da espécie visto que apenas uma linha de interpretação os separam e, nesse caso, podem parecer conflitantes.

O prisma das possibilidades


A causalidade transforma-se em oportunidade quando a percepção enxerga através do prisma das possibilidades. Caso contrario, os acontecimentos não passarão de bobagens, empecilhos ou coisas sem importância. Cabe a nós selecionar, lapidar e transformar as pedras que surgem em nosso caminho.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Inquietações

Nossas inquietações, ou problemas, distribuem-se como se numa pilha,  a qual sempre está um passo a nossa frente. Quanto maior a inquietação sobre o prisma de nossas percepções, mais alta é sua posição no topo da pilha que, com certa frequência, é redesenhada dando prioridade a inquietações mais significativas de acordo com o momento em que vivemos. Por mais que minha pilha pareça pequena aos olhos do outro ou mesmo a pilha do outro me pareça pequena e pouco nobre, cada um só tem a sua própria pilha como medida, pois é a única coisa que sentimos na pele. O meu maior problema, mesmo que insignificante para muitos, é a pedra no sapato que me faz mancar.
Agora, cabe a mim distinguir, separar e dar a importância necessária as minhas inquietações, descobrir as verdades e mitos que compõem a essência de cada uma, dar o espaço para que elas cresçam ou sufoca-las diante da descoberta de suas verdades, suas inverdades, significâncias e insignificâncias.

Minhas verdades, minhas dores

As verdades, julgamentos ou simplesmente percepções de outrem acerca de nossa pessoa tornam-se uma afronta contra nossa moral, autoestima e/ou vaidade no momento em que essas "verdades" vem ao encontro de nossas verdades pessoais mais ocultas e são reconhecidas como certezas por elas, aquelas que tentamos esconder de nós mesmos, aquelas que, envergonhadas, nunca saem a luz. Como se colocando o dedo em uma dolorosa ferida, a qual escondidos e solitários, cuidamos a muito tempo para que ninguém as veja ou sequer desconfie de sua existência. Se há intenção ou não de ferir, isso já não mais importa, ao sentir a carne cortada e todo nosso esquema de segurança e de autopreservação desmantelado. Isso provoca reações exageradas, quase sempre incompreensíveis aos envolvidos no julgamento, que não tem a mínima noção da profundidade das crenças e dores por eles fustigadas.

Compreensão ou especulação?

A pessoa correta faz o que está de comum acordo entre sua vontade e sua moral, não permitindo que haja discrepâncias relevantes entre suas atitudes e seus pensamentos. Porém é um erro dessa pessoa, ou nosso, pensar que os outros tentarão, ou mesmo deverão, decifrar essas atitudes procurando seus motivos mais verdadeiros e/ou até mesmo mais nobres. Todos interpretarão usando suas próprias crenças pessoais e percepções criadas com base em quem toma tal atitude, livres de qualquer obrigação de compreende-la em sua totalidade. É fácil julgar sem sair da zona de conforto, seguro nos próprios pensamentos, nas próprias crenças, na própria moral. Difícil é colocar-se no no lugar do outro, tentando entender a nuance dos pensamentos entrelaçados nas atitudes, isso requer esforço, dedicação, coragem e por fim, mas não menos importante, a capacidade de analise desinteressada, manter-se a certa distância de suas crenças pessoais no processo de tal analise. Se você não espera compreensão não se decepcionará quando não for compreendido. Quem de fato pode ser compreendido? Quem de fato pode compreender o que leva uma pessoa a fazer o que faz e como faz? Nossa compreensão dos outros me parece não passar de especulação, onde cada um é dono de de certa verdade, e em posse dessa verdade, sai por ai batendo seu (nosso) "martelo" de julgamentos.

Extinção das crenças

A extinção de crenças  sobrenaturais, que de alguma forma explicam a metafísica, deixam recair todo o peso  das decisões, ou até mesmo da vida, em nossos ombros, bem assim como suas consequências: os fracassos e sucessos. Sem destino, sem objetivos, nada além do homem, nada além da terra. Alguns precisam da segurança trazida pela crença em algum Deus, ou destino ou até em seres superiores vindos de outros planetas.. desde que se tem notícias a humanidade é assim. Outros ainda preferem a liberdade de criar sua história sendo o Deus de si mesmo. A escolha está entre a segurança da transcendência e a solidão do universo desconhecido, mesmo que pouco se saiba acerca dessas duas escolhas.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Amor Líquido - O amor e o desejo

     Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se destrói, o amor se autoperpetua.
Tal como o desejo, o amor é uma ameaça ao seu objeto. O desejo destrói seu objeto, destruindo a si mesmo nesse processo; a rede protetora carinhosamente tecida pelo amor em torno de seu objeto escraviza esse objeto. O amor aprisiona e coloca o detido sob custódia. Ele prende para proteger o prisioneiro.
      Desejo e amor encontram-se em campos opostos. O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. Fiéis a sua natureza, o amor se empenharia em perpetuar o desejo, enquanto este se esquivaria aos grilhões do amor.
                                               
                                                              - Amor Líquido - Zygmunt Bauman