Parei para pensar um pouco sobre o
assunto comissão da verdade e sobre as críticas feitas quanto aos seus
objetivos. Essas críticas me parecem surgir no sentido de anulação dos
atos opressores (por parte dos militares) em face da resistência (por
parte dos dispostos a lutar pela liberdade) que também cometeu crimes.
Mas é claro que aqui caímos em uma lógica controversa, nos valendo do
ditado “chumbo trocado não dói”. A real questão, a qual ninguém se
refere e alguns não pensam por incapacidade de raciocínio ou
simplesmente por conveniência, é que a resistência ao opressor é
justamente um efeito colateral da opressão, já que ela não existiria em
situações ditas como normais. Com esse pensamento somos levados a
pergunta: Então a resistência tudo pode?! Na minha opinião não. Porém
não sou ingênuo o suficiente para acreditar que a resistência deve ser
feita com paz, amor e troca de rosas, já que o sistema opressor tem como
objetivo eliminar possíveis lideres da resistência e não abre espaço
para diálogo. A resistência tem o propósito de resistir ao sistema
opressor e com isso enfraquecer seu poder, ou seja, ela só deve atentar
contra o poder.
O livro 1984, de George Orwell, tem uma
passagem bem interessante nesse sentido, onde o personagem O’Brian ( até
então membro da resistência ao totalitarismo, sistema o qual se passa a
história) pede ao personagem Winston (o qual queria fazer parte da
resistência) o que ele estava disposto a fazer para derrubar o poder, e
nisso incluía-se torturar, matar, desfigurar crianças, espalhar doenças e
outras atrocidades em prol do enfraquecimento o totalitarismo vigente.
Winston se diz disposto a tudo, mesmo que, aparentemente, tendo
consciência de que o “vale tudo pelo poder” era exatamente a tática do
regime opressor. Por fim, revelar-se-ia que o “vale tudo” nada mais é do
que o poder pelo poder, e o que mudaria com uma contra revolução seria
apenas a figura do déspota da vez.
Ora, claro que esse pensamento nos parece
radical, mas em tempos de guerra, pessoas desconhecidas não tornam-se
nossos maiores inimigos e perdem sua humanidade? Ao menos isso é o que a
propaganda de guerra tenta fazer com que a população acredite. Isso se
aplica a nazistas, a comunistas, a capitalistas e qualquer outro
fracasso social chamado de “sociedade ideal”. Então, voltando ao assunto
anulação do peso da opressão simplesmente por existir resistência é um
pensamento ridículo e sem profundidade que muitos cospem por ai com
tanta veemência que alguns ficam na dúvida e outros acreditam sem
ponderar. A resistência nada mais é do que a lei de ação e reação ou, me
repetindo, um indesejado efeito colateral da opressão, um câncer que
tenta corroer e desmantelar o sistema totalitário.
Uma das mais relevantes observações sobre o holocausto, vistas como grande crítica, feita por Aannah Arendt e por Zygmunt Bauman,
foi a incapacidade de resistência do povo Judeu, que mostrou-se apatico
e esperançoso, racional de mais ante a irracionalidade desumana
nazista, como observa Bauman, mesmo face a face com a morte nos
guetos e campos de concentração. Logicamente, o assunto holocausto, não
é tão simples assim e tem toda uma “arquitetura de controle” que levou a
subserviência e colaboração dos oprimidos para a desumanização deles
próprios perante a sociedade européia e perante seus.
Também acho apelativo chamar a ditadura
de “ditabranda”, afirmando que comparada com outras ditaduras a nossa
foi leve e suave. Então eu pergunto: E dai? E logo lembro da citação de Ludwig Wittgenstein:
Nenhum clamor de tormento pode ser maior que o clamor de um homem.
Ou, mais uma vez, nenhum tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer.
O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma única alma.
Não é por que matou menos que é melhor.
Se matou e torturou, essa comparação de números é relevante pra quem?
Talvez para a história, mas para a mãe que perdeu o filho ou para o
filho que perdeu o pai a afirmação “matou menos” não deve ser nada
acolhedora. E talvez só não se matou mais por que a situação não
permitiu, mas aqui já passa a ser especulação. Ainda na questão podemos
tirar do Amor Líquido de Baumam a seguinte citação:
A negação da dignidade humana
deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negação para
afirmar a si mesma. E o sofrimento de uma única criança [ser humano]
deprecia esse valor de forma tão radical e
completa quanto o sofrimento de milhões. O que pode ser válido para
omeletes [referinfo-se ai ditado que para fazer um omelete precisamos
quebrar alguns ovos] torna-se uma mentira cruel quando aplicado à
felicidade e ao bem-estar humanos.
Concluo que o papel da resistência é
importante e necessária em sistemas totalitários, que em tempos
democrático poderíamos chamar de oposição livre e também necessária no
contexto democrático. Poderia também dizer, como li por ai, que a
resistência já teve seu julgamento in loco, sofrendo torturas
ou pagando com a vida, mas isso me soaria demasiadamente apelativo,
julgado como ladainha aos olhos de quem esbraveja com sangue nos olhos
“bandido tem que morrer!”, e tais grupos resistentes, por sua vez, eram
bandidos pelo simples fato de existirem segundo as leis vigentes na
época. Porém, certamente alguns nada sofreram (ao menos não como queria o
regime), então prefiro ficar ao lado do pensamento racional e
ponderado, que me leva a crer que a reação não existiria sem a ação.