sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sr. Capitalismo

Curvem-se diante de mim, caso contrario serão meus inimigos. Quem não está comigo certamente está contra mim. 

Mas é claro que, isso não é de todo o mal, sendo que assim, tenho oportunidade, através da minha força, de tomar-lhe a metéria que alimenta meu poder. 

Meu modelo pressupõe infinita expansão, e isso por que tenho fé na ciência, o braço forte da modernidade,  que irá reproduzir as vezes do universo e enlatar seus frutos, claro que com menor custo, menor tempo e com mais sabor. - Sr. Captalismo.


Homens escravos e homens livres

Defeito principal dos homens ativos – Aos homens ativos falta habitualmente a atividade superior, quero dizer, a individual. Eles são ativos como funcionários, comerciantes, eruditos, isto é, como representantes de uma espécie, mas não como seres individuais e únicos; neste aspecto são indolentes. – A infelicidade dos homens ativos é que sua atividade é quase sempre um pouco irracional. Não se pode perguntar ao banqueiro acumulador de dinheiro, por exemplo, pelo objetivo de sua atividade incessante: ela é irracional. Os homens ativos rolam tal como pedra, conforme a estupidez da mecânica. – Todos os homens se dividem, em todos os tempos e também hoje, em escravos e livres; pois aquele que não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito.

                   Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, pag. 283

Comissão da verdade e suas críticas

Parei para pensar um pouco sobre o assunto comissão da verdade e sobre as críticas feitas quanto aos seus objetivos. Essas críticas me parecem surgir no sentido de anulação dos atos opressores (por parte dos militares) em face da resistência (por parte dos dispostos a lutar pela liberdade) que também cometeu crimes. Mas é claro que aqui caímos em uma lógica controversa, nos valendo do ditado “chumbo trocado não dói”. A real questão, a qual ninguém se refere e alguns não pensam por incapacidade de raciocínio ou simplesmente por conveniência, é que a resistência ao opressor é justamente um efeito colateral da opressão, já que ela não existiria em situações ditas como normais. Com esse pensamento somos levados a pergunta: Então a resistência tudo pode?! Na minha opinião não. Porém não sou ingênuo o suficiente para acreditar que a resistência deve ser feita com paz, amor e troca de rosas, já que o sistema opressor tem como objetivo eliminar possíveis lideres da resistência e não abre espaço para diálogo. A resistência tem o propósito de resistir ao sistema opressor e com isso enfraquecer seu poder, ou seja, ela só deve atentar contra o poder.

O livro 1984, de George Orwell, tem uma passagem bem interessante nesse sentido, onde o personagem O’Brian ( até então membro da resistência ao totalitarismo, sistema o qual se passa a história) pede ao personagem Winston (o qual queria fazer parte da resistência) o que ele estava disposto a fazer para derrubar o poder, e nisso incluía-se torturar, matar, desfigurar crianças, espalhar doenças e outras atrocidades em prol do enfraquecimento o totalitarismo vigente. Winston se diz disposto a tudo, mesmo que, aparentemente, tendo consciência de que o “vale tudo pelo poder” era exatamente a tática do regime opressor. Por fim, revelar-se-ia que o “vale tudo” nada mais é do que o poder pelo poder, e o que mudaria com uma contra revolução seria apenas a figura do déspota da vez.

Ora, claro que esse pensamento nos parece radical, mas em tempos de guerra, pessoas desconhecidas não tornam-se nossos maiores inimigos e perdem sua humanidade? Ao menos isso é o que a propaganda de guerra tenta fazer com que a população acredite. Isso se aplica a nazistas, a comunistas, a capitalistas e qualquer outro fracasso social chamado de “sociedade ideal”. Então, voltando ao assunto anulação do peso da opressão simplesmente por existir resistência é um pensamento ridículo e sem profundidade que muitos cospem por ai com tanta veemência que alguns ficam na dúvida e outros acreditam sem ponderar. A resistência nada mais é do que a lei de ação e reação ou, me repetindo, um indesejado efeito colateral da opressão, um câncer que tenta corroer e desmantelar o sistema totalitário.

Uma das mais relevantes observações sobre o holocausto, vistas como grande crítica, feita por Aannah Arendt e por Zygmunt Bauman, foi a incapacidade de resistência do povo Judeu, que mostrou-se apatico e esperançoso, racional de mais ante a irracionalidade desumana nazista, como observa Bauman, mesmo face a face com a morte nos guetos e campos de concentração. Logicamente, o assunto holocausto, não é tão simples assim e tem toda uma “arquitetura de controle” que levou a subserviência e colaboração dos oprimidos para a desumanização deles próprios perante a sociedade européia e perante seus.
Também acho apelativo chamar a ditadura de “ditabranda”, afirmando que comparada com outras ditaduras a nossa foi leve e suave. Então eu pergunto: E dai? E logo lembro da citação de  Ludwig Wittgenstein:
Nenhum clamor de tormento pode ser maior que o clamor de um homem.
Ou, mais uma vez, nenhum tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer.
O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma única alma.
Não é por que matou menos que é melhor. Se matou e torturou, essa comparação de números é relevante pra quem? Talvez para a história, mas para a mãe que perdeu o filho ou para o filho que perdeu o pai a afirmação “matou menos” não deve ser nada acolhedora. E talvez só não se matou mais por que a situação não permitiu, mas aqui já passa a ser especulação. Ainda na questão podemos tirar do Amor Líquido de Baumam a seguinte citação:
A negação da dignidade humana deprecia o valor de qualquer causa que necessite dessa negação para afirmar a si mesma. E o sofrimento de uma única criança [ser humano] deprecia esse valor de forma tão radical e
completa quanto o sofrimento de milhões. O que pode ser válido para omeletes [referinfo-se ai ditado que para fazer um omelete precisamos quebrar alguns ovos] torna-se uma mentira cruel quando aplicado à felicidade e ao bem-estar humanos.
Concluo que o papel da resistência é importante e necessária em sistemas totalitários, que em tempos democrático poderíamos chamar de oposição livre e também necessária no contexto democrático. Poderia também dizer, como li por ai, que a resistência já teve seu julgamento in loco,  sofrendo torturas ou pagando com a vida, mas isso me soaria demasiadamente apelativo, julgado como ladainha aos olhos de quem esbraveja com sangue nos olhos “bandido tem que morrer!”, e tais grupos resistentes, por sua vez, eram bandidos pelo simples fato de existirem segundo as leis vigentes na época. Porém, certamente alguns nada sofreram (ao menos não como queria o regime), então prefiro ficar ao lado do pensamento racional e ponderado, que me leva a crer que a reação não existiria sem a ação.