Identifico como um dos grandes problemas da política como sendo a impessoalidade por ela assumida diante das pessoas. Quando falamos de política, parece que falamos em algo pronto, algo intangível, que até certo ponto tem vida própria, não tem jeito nem solução. A impessoalidade através da qual ela se apresenta é pouco convidativa para uma participação generalizada e para a existência de uma preocupação coerente com a gravidade da sua importância.
A política não nos atinge na hora do discurso, nas promessas, e nem mesmo na descoberta da corrupção, isso atinge apenas nossas vontades de ter ou de ser, apenas nossos brios. A política nos atinge no dia a dia, nas coisas banais, nas entrelinhas do cotidiano. Os grandes problemas por ela gerados são pequenos desconfortos que fazemos vista grossa, empurramos com a barriga até que esses pequenos problemas fiquem pesados de mais, virem monstros incontroláveis, abstratos, que carecem de soluções complexas e inteligentes, que envolvem engajamento de todos. Porém, nem todos estão dispostos a isso, a dedicar-se aos problemas, por que agora, como eles são grandes de mais, e "minha" atitude por si só não faz diferença, então jogamos a culpa no governo, ou na sociedade ou em outras coisas que parecem nos fugir do controle (quem são esses se não nós mesmos?! Existe alguma força política, social, organizacional além do homem?). Com isso, grande parte dos interessados (nós) tiram o corpo fora, por acharem-se insignificantes diante do problema, diante do sistema, causando a proliferação dos problemas e putrefação dos mesmos.
Outro fator está ligado a responsabilidade moral de cada um de nós. A impessoalidade da política parece envolver os praticantes da mesma em um escudo contra julgamentos morais. Agindo por de trás de uma instituição, os que efetivamente fazem a roda da política girar, ou de fato são suas engrenagens, escondem-se por detrás de um estado corrupto, atrás de uma política corrupta, como se a política ou o estado por si só pudesse ter alguma qualidade do gênero. Até mesmo quando pensamos que o problema da política é o povo corrupto, apesar de certa verdade, caímos na impessoalidade de uma designação. Ora, vamos dar nomes aos bois! A culpa é nossa, da nossa falta de engajamento, falta de interesse, pelo nosso deixar acontecer, da falta de compromisso e do enfraquecimento dos valores morais mais nobres (ou até seu desaparecimento!).
São tantos cargos, que a maioria sabe apenas o nome do presidente, o resto são apenas designações políticas, que agem através de uma sombra sem obrigações morais, sem cobranças efetivas. Nós, seres sociais, contrariando o que se espera, desaprendemos a forma de fazer política, os seu primordial objetivo: Uma facilitadora nas relações interpessoais, provendo a justiça e o bem estar através do estado e não transformar o estado em uma maquina de produção, onde o objetivo é o controle social visando o enriquecimento do estado e de quem dele se beneficia (e certamente não é a maioria de nós, mas poucos que escondem-se atrás de classes sociais mais elevadas, e por isso, acima da moralidade por auto julgamento).
A solução para os monstros construidos através de séculos só será possível quando for uma questão pessoal para cada um de nós, quando a moralidade e a ética de cada um tiver força suficiente para ponderar por suas atitudes e assumir suas responsabilidades perante os outros seres humanos. E sim, isso aprende-se na escola, aprende-se no berço familiar, aprende-se desde as primeiras relações sociais as quais somos submetidos. Isso chama-se responsabilizar-se pelo que se faz ao invés de colocar a culpa em algo inatingível (como numa designação), que por sinal, é algo que mostra-se extremamente difícil em uma sociedade formada por caráter duvidoso. Quando o caráter é fortemente moldado qualquer problema que insinue ferir-lhe é tido e resolvido como pessoal.
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