terça-feira, 8 de abril de 2014

Os homens e seus problemas

Para o homem que viveu com um grande problema como um destino e cujos dias e noites são passados em diálogos e em resoluções solitárias, as opiniões de outrem sobre esse mesmo problema são uma espécie de zumbido do qual se defende tapando os ouvidos. Ouve a respeito, quando muito, indiscrição, incompetência e indecência da parte daqueles que, a seu ver, não tem direito a semelhante problema, por que não o descobriram. É nas horas em que se desconfia de si mesmo, de seu direito e de seu privilégio, que o apaixonado solitário - pois, todo filósofo é isso - deseja ouvir tudo que foi dito ou entendido por ocasião de seu problema; talvez perceba então que o mundo está repleto de apaixonados ciumentos como ele e que todo esse barulho, toda essa confusão, essa vida pública, todo esse desfile da política, da vida cotidiana, da feira, da "época", tudo isso parece ter sido inventado somente para permitir, ao que resta de solitários e de filósofos, dissimular-se atrás disso, no que constitui sua solidão própria; todos ocupados com uma única coisa, apaixonados por uma única coisa, ciumentos com uma única coisa: justamente seu próprio problema. "Só se pensa nisso hoje, por pouco que se pense", diz ele finalmente para si mesmo. "Tudo gira em torno desse mesmo ponto de interrogação. O que parecia ser reservado para mim é o que a época inteira ambiciona; no fundo, nada mais acontece;. eu mesmo - mas o que importa minha pessoa!"
                                     
                                           - Friedrich Nietzsche - Vontade de potência

Nenhum comentário:

Postar um comentário